Thursday, May 14, 2015

O coração de um homem


Deve-se escolher um homem pelo tamanho do seu coração.
Dizem que o coração de um homem tem o tamanho de sua mão fechada, um punho cerrado. O mesmo punho que serve para esmurrar, para bater, para agredir, serve também para medir o coração. É uma estranha medida!
O coração é um poderoso músculo que palpita para manter a vida circulando pelo corpo. É o único órgão musical que existe dentro de nós. Um tambor africano, incansável, que nos permite viver através de seu ritmo: tum-tum, tum-tum...
Mas não é desse coração que falo. Falo do outro. Aquele que estremece com as emoções, e bate mais rápido quando se alegra, ou mais devagar quando se entristece. Aquele que se expande com o amor e encolhe com a dor. Aquele onde moram os filhos, os amantes e os amigos.
É este coração que é preciso medir antes de escolher um homem. É ali que queremos morar por muito tempo. Mas é uma medida difícil!
O coração de um homem tem que ser grande como uma casa espaçosa, ampla. Com janelas para que a noite e o dia entrem. Com varandas para espreitar a lua e as estrelas. Uma casa com portas, gente, alegrias, certas tristezas, uma mágoa ou outra, riso e espanto. Onde caibam os filhos e a ternura.
O coração de um homem tem que ser alto para ficar próximo do céu, como os pássaros. Para poder voar, planar, abrigar os sonhos, a liberdade e a democracia. Tão alto que cause vertigens!
O coração de um homem tem que ser como uma orquestra, para ter música de Albeniz a Wagner. E um silêncio que lembre a quietude dos grandes desertos. Para que a arte floresça dentro dele e germinem a dança e as lágrimas. Porque a canção e a poesia crescem no mesmo lugar onde nascem as lágrimas.
O coração de um homem tem que ser como um navio, com sua quilha cortante para navegar sobre os oceanos e traçar novos rumos. Tem que possuir grandes velas para aprisionar os ventos contrários. Tem que ser forte para resistir às tempestades.
Foto: Elsa Martins Esteves
O coração de um homem tem que ser fundo, cheio de raízes, como as árvores centenárias. Para que não se solte de repente e parta sem rumo. Para que o amor perdure e a lealdade se cultive. Para que nasçam rosas, cheias de espinhos protetores e temerária beleza.

Deve-se escolher um homem pelo tamanho do seu coração. É ali que estão as sementes de toda uma vida – a perdição ou a salvação. É uma medida possível! 



Thursday, April 30, 2015

Velhice não tem idade


À minha sobrinha, Maria Luiza Bogo

Foto de Tom Hussey
Existe uma verdade bruta, incontornável: seremos velhos um dia!
E o desconcerto com a idade não acontece apenas com gente madura. Recentemente, a minha sobrinha, Maria Luiza, parecia espantada com a rapidez com que chegara aos vinte anos. Confessou, com alguma angústia:
– Tia, vou fazer vinte anos. Estou ficando velha!
Eu não soube o que responder. 

No meu tempo (e esta frase é o primeiro sinal da idade) eu não via a hora de completar vinte anos. E só comecei a pensar na velhice muito mais tarde, e de um modo positivo: escolhendo o país em que viverei,  preparando uma lista infindável de coisas para fazer e lugares para visitar. (É óbvio que escalar o Everest está fora de questão, mas já estava quando eu tinha vinte anos!)
E eu me pergunto: o que acontece com esta geração para que, aos vinte anos, se angustie com o fantasma da velhice? E a velhice seja encarada como algo tão negativo e assustador?
A resposta é simples: a forma de equacionar a velhice em certos países, e círculos, é responsável por gerar esse susto, esse pavor. E isso tem consequências tremendas.
Sociedades civilizadas respeitam os mais velhos e reconhecem neles a sabedoria dos anos. Acarinham-nos depois que eles trabalharam por uma vida, serviram a sociedade e tiveram sua descendência. Essa civilidade não está somente ligada a países tecnologicamente evoluídos, como os do norte da Europa. Em várias sociedades africanas, os idosos são respeitados, encarados como seres superiores que têm uma experiência de vida para partilhar e muito para ensinar. Portanto, é falsa a questão de que o respeito pelos mais velhos está associado à evolução tecnológica.

Foto de Tom Hussey
O mundo atual valoriza, acima de tudo, a beleza e a juventude, porque existe uma indústria bilionária alimentando esses valores - diariamente. Nesse contexto, a velhice é entendida como uma condenação que todos querem evitar. O corpo desgastado, marcado pelo tempo, é obrigatoriamente feio, decadente. Os idosos são tratados como algo descartável: já viveram o seu tempo, e agora estão “atrapalhando”, “pesando na sociedade”. Eles representam aquilo que ninguém deseja ser, que ninguém quer ver. Rejeitá-los é uma forma de negação da velhice em si.
Hoje em dia quase ninguém aparenta a idade que tem, e nunca os idosos se sentiram tão jovens, tão vigorosos. Mas é paradoxal que aos cinquenta as pessoas já sejam consideradas velhas, e sejam excluídas do mercado de trabalho.
São esses valores que estão na origem da angústia dos jovens e das percepções sobre os idosos. E uma sociedade que rejeita a sabedoria e descuida os mais velhos, é uma sociedade ignorante. E a sociedade não são os outros! Somos nós – eu, você, os amigos, a família. Todos!
Negar a velhice gera sofrimento porque se está lutando contra o inevitável. E menosprezar os idosos é traçar o próprio destino – aquilo que fazemos aos outros, retorna para nós.

Maria Luiza, agora eu sei o que te responder. 
O corpo se desgasta, sim. Foi o veículo que usamos para viver, para viajar. Precisamos abandoná-lo, em algum momento, para podermos partir. 
E a velhice significa que se viveu e aprendeu. É o resultado de nossas escolhas, amores, perdas, conquistas, tristezas e alegrias. A velhice é o lugar onde precisamos chegar, inteiros, depois que passamos a vida viajando e coletando nossas memórias. Por isso, seja sábia na escolha de seus companheiros de viagem, para que suas memórias sejam coloridas e cheias de afeto.
Boa viagem, querida!


Wednesday, April 29, 2015

Todos têm um(a) EX na vida



A ex do marido, ou namorado, costuma ser usada como o exemplo de uma relação complexa, tensa, cheia de armadilhas. Gera controvérsias: alguns convivem bem, mas a maioria preferia não manter qualquer tipo de contato. Trata-se de uma relação que envolve uma vasta gama de emoções e também envolve os filhos. Você se separa, mas os filhos são um vínculo que não se quebra. Continuam lá, como um fio de arame, ligando as pessoas. E tudo o que está ligado ao amor é mais visceral, adquire uma força maior: quando é bom, é paradisíaco, mas quando é mau, torna-se infernal.
Como diria minha amiga Paula Loque, do ponto de vista simbólico, todos têm um ou uma ex em suas vidas. A ex funciona aqui como uma metáfora: trata-se da imagem (muitas vezes falsa) de alguém difícil, com quem muitos são obrigados a se relacionar. Neste sentido, pode ser o chefe implacável, um amigo que o traiu, a sogra impossível, ou até mesmo a mulher ciumenta.
Relações difíceis ocupam muito espaço na nossa vida, um espaço que é usurpado ao bem estar e à alegria. Relações difíceis exigem tempo, um tempo que é gasto gerindo alguém que quer nos machucar.
Mas o pior é que essas relações difíceis geram um desgaste emocional que vai corrompendo a nossa a felicidade. Sugam a energia e a alma. Aqueles que são obrigados a lidar com uma pessoa desagradável, maldosa ou maquiavélica, sabem o quanto isso é sofrido e extenuante.
É sempre necessário avaliar as situações e considerar o que é melhor: brigar ou ignorar certas provocações, certos gestos maldosos. É muito mais fácil brigar do que ignorar. Reagir aos estímulos é um comportamento básico, espontâneo, ao passo que, controlar a irritação – a raiva, é algo que exige autocontrole, é um comportamento racionalizado que demanda treino, educação.
Eu acredito que só vale a pena brigar por aquilo que é realmente importante: um princípio que faça diferença, uma situação que não pode ser ignorada. O resto, as pequenas provocações, as alfinetadas do dia a dia, são coisas mesquinhas, que não valem o esforço de uma briga.
Muitas pessoas sentem necessidade de impor seu ponto de vista. Trata-se de uma questão de poder. Querem ter razão a qualquer preço. Querem aparecer a qualquer custo. Querem se impor. Querem ganhar sempre. Entendem todas as situações, até mesmo uma simples conversa, como uma competição a ser vencida. Mas isso não é competitividade. É estupidez. Penso que não se deve confrontar alguém assim – centrado em si mesmo e desprovido de inteligência emocional. O melhor é ignorar.
Todos têm relações difíceis, mas é a forma como lidam com elas que faz toda a diferença. O conflito só acontece quando duas pessoas se envolvem. Não importa quem começou, o mais forte e o mais sábio será sempre aquele que não se deixou envolver por  questões mesquinhas e não se enredou nas malhas do confronto fácil.
O livro Como ser amiga da Ex do seu marido é inspirado em uma história real, aborda relacionamentos difíceis, e aponta caminhos para superar conflitos e criar convívios civilizados.

Friday, October 31, 2014

Quando o amor acaba

Ninguém sabe como é que o amor acaba, e tudo o que era deixou de ser.
A felicidade esvai-se, as promessas esfarelam-se, o espanto e a efervescência do coração somem. O belo torna-se feio e o feliz fica triste. Resta o vazio ou a raiva, e o frio desconcertado de um amor que se foi.
Mas o amor não acaba de repente. Pode chegar de repente, mas nunca se vai de repente. Tem um ritmo lento – todos os dias se perde um pouco, se esvai um pouco. Ninguém acorda uma manhã e diz “não te amo mais”, como se aquela verdade tivesse nascido e crescido numa só noite. Não! Todos os dias se ama um pouco menos, até chegar ao ponto zero, e esse ponto nunca é o mesmo de antes do amor – é um ponto mais dolorido, mais enraivecido, mais triste. Por quê? Porque antes do amor acontecer existia a esperança e depois do amor acabar ficou a desilusão.
A separação de dois seres, que um dia se amaram, não fica mais fácil só porque o amor se foi. Claramente aquele que ainda ama sofre mais. Mas o fim é sempre doloroso. Mesmo para aquele que ama menos ou que percebeu primeiro os sinais do fim.    
A memória dos tempos felizes torna-se incompreensível: não se entende bem como se passou daqueles momentos iniciais, cheios de alegria, para os momentos finais, quando só resta a tristeza. É como se todo aquele tempo entre início e fim tivesse desaparecido subitamente. Mas não é assim. Aquele tempo está lá, cheio de sinais e pequenos gestos que foram minando o amor,  mas, também, cheio de grandes eventos e gestos que sustentaram o amor.
Ninguém sabe como fazer o amor durar. 

Encontrei uma parábola sobre isso (desconheço o autor). Trata-se de diálogo entre mãe e filha, quando passeavam pela praia. 
– Como se faz para manter o amor? – perguntou a filha.
– Pega um pouco de areia e fecha a mão com força. – sugeriu a mãe.
A menina obedeceu, e quanto mais apertava a areia na mão, mais rapidamente ela escapava.
– Mamãe, assim a areia cai. – constatou.
– Eu sei. Agora abra totalmente a mão. – disse a mãe.
A menina abriu a mão e o vento levou a areia que restava.
– Assim também não consigo mantê-la na mão.
– Agora pegue outra vez um pouco de areia e mantenha a mão semiaberta: fechada o suficiente para protegê-la, e aberta o suficiente para dar-lhe liberdade.
A menina experimentou e viu que a areia ficou na sua mão, protegida do vento.
– É assim que se faz durar um amor. – explicou a mãe.
Nem muito, nem pouco; nem em excesso, nem à míngua: o amor é a busca constante do equilíbrio, mas nem assim é seguro que dure.
O desgaste acontece naturalmente, como acontece com tudo – as casas, as paisagens, as pessoas. É um processo normal. Por muita preocupação que haja em preservar o amor, os problemas e a erosão do cotidiano, invadem-no e consomem. 
Ninguém sabe como fazer o amor durar: ele é capaz de suportar quase tudo e terminar por quase nada. Mas o amor sempre nos surpreende – quando começa e quando acaba. E o que é preciso reter na memória é esse tempo entre o início e o fim, esse tempo do meio, onde aconteceu uma vida – os filhos cresceram, os afetos amadureceram.

É esse tempo do meio que nos salva. Que nos permite resgatar o carinho e a cumplicidade. E pode bem ser que, quando pensamos que o amor já se foi, ele ainda resista em nós.

Monday, July 14, 2014

Tempos difíceis

Ao Benito Bogo e Mário Guia Martins

Têmpera é a “dureza e flexibilidade adquirida pelos metais como o ferro e o aço”, mas é também “disposição, moral, índole, caráter, integridade, austeridade de princípios.” A têmpera acontece tanto nos metais, quanto nos homens. Mas, nos dois casos, é necessário que haja um processo.
Nos metais, esse processo realiza-se através das altas temperaturas que moldam o ferro e o aço transformando-os, simultaneamente, em matérias duras e flexíveis.   
Mas, nos homens, a temperatura é substituída pela adversidade.
Quando tudo está bem, as pessoas não adquirem nem revelam sua têmpera. Uma vida plana, feita somente de alegrias, sucessos contínuos e vitórias obtidas sem desafios, dificuldades ou obstáculos, não molda o caráter ou a integridade de alguém. Por isso, aqueles que nunca passaram por tempos ruins, e só viveram tempos bons, talvez sejam menos humanos. Vivem numa espécie de limbo intocado pela adversidade, desconhecem o desespero, o medo e a dúvida. Existe uma compaixão que lhes escapa, como se eles tivessem uma falha de caráter. Desconhecem a empatia, e os outros, são sempre o resto.
A têmpera ganha-se e mede-se nos tempos difíceis, quando tudo vai mal. Quando o emprego se foi, o amor acabou, a fome espreita, a solidão se instalou, as finanças estão no vermelho, o casaco está puído nas mangas, a esperança está por um fio e o desespero tem o pé enfiado na porta da frente, pronto para entrar.
São as dificuldades que elevam o homem, moldam o seu caráter, transformando-o numa matéria próxima da dos metais – resistente e maleável. São as horas amargas, as hesitações, as angústias  e as perdas, que revelam a grandeza.       
A temperatura está para os metais como a adversidade está para os homens: sem o calor não haveria ferro ou aço, e sem os tempos difíceis não haveria os homens. Os homens de verdade – aqueles que passam pelo desespero, como se atravessassem uma barreira de fogo, e saem do outro lado com o caráter inteiro, a esperança incólume, dispostos a tentar tudo de novo. E por conhecerem a escuridão, também são mais generosos, caridosos e solidários.
Só os homens que passaram por tempos difíceis possuem têmpera. E esses são os homens extraordinários! 


Friday, October 25, 2013

A falta de educação.

Gostamos de acreditar que nós, seres humanos, somos todos iguais. Não é verdade. Pessoas educadas são seres superiores – são mais civilizados e estão num patamar evolutivo acima da média geral da população.

É muito difícil – e penoso – lidar com gente sem educação. Embora a educação tenha vários níveis, do mais superficial (que diz respeito às regras básicas, do cotidiano) ao mais profundo (ligado à estética e ao cuidado com os outros – uma espécie de etiqueta da alma), é a ausência das coisas básicas que se torna mais irritante e inviabiliza o convívio. Não se espera que as pessoas saibam tudo sobre etiqueta, mas espera-se que sejam capazes de funcionar segundo as regras mais simples, e também as mais essenciais, da sociedade. 
A educação divide o mundo entre os que são e que não são educados. E, neste sentido, não existe algo como ser “meio educado”, porque isso já significa que não se é educado.
E o que mais impacta no dia a dia são gestos muito simples que, na realidade, definem quem é a pessoa – como se fossem uma fotografia. Vejamos alguns...
A língua: O mínimo que se espera de alguém é que domine a sua língua – fale e escreva corretamente. A língua é o principal instrumento de comunicação e está em constante evolução, mas isso não significa que deva ser deturpada e destruída. “Evolução” significa desenvolvimento, crescimento, aperfeiçoamento e não destruição. Justificar o mau uso da língua, dizendo que ela está evoluindo, é alimentar e embasar a ignorância. É inverter os valores, balizando por baixo, nivelando pelo pior: em vez das pessoas se esforçarem para aprender a sua própria língua, estão a destruí-la, para adaptá-la à sua ignorância.
Mais um comentário: é vergonhoso – e deprimente – ver como as pessoas escrevem nas redes sociais. Escrever errado não tem justificativa: há centenas de dicionários online, acessíveis com um click. Isso não é apenas falta de educação: é a mais pura e absoluta ignorância.
Vocabulário: “por favor”, “com licença”, “desculpe” e “obrigado” são expressões fundamentais para o relacionamento entre as pessoas. Não importa quanta intimidade se tem com alguém, essas palavras são necessárias em qualquer situação. São alicerces da civilização, e não é por acaso que são as primeiras expressões que as crianças aprendem quando começam a se relacionar com os outros.
Sujar os espaços públicos: Jogar lixo (e cuspir) nas ruas, parques ou praias é um verdadeiro horror! O mesmo vale para os cães: levar o animal para passear e deixar a sujeira espalhada no chão não é apenas ausência de princípios, revela ainda que a pessoa é nojenta e grosseira.
O estado dos espaços público reflete o estágio evolutivo do povo: pessoas civilizadas moram em lugares limpos, não apenas porque os serviços públicos são eficazes, mas principalmente porque ninguém joga lixo nas ruas – nem um papel ou mesmo a ponta de um cigarro.

Furar fila: As filas são para respeitar porque têm o único propósito de evitar que a desordem e confusão predominem. Isso também se aplica às filas nas estradas, o que significa que aqueles motoristas que vão pelo acostamento são um bando de imbecis sem educação ou respeito pelos outros. 
Nas filas, é fundamental ceder o lugar aos mais idosos, gestantes e crianças – regra que vale para os transportes públicos. Isso se aplica também àqueles que fingem estar dormindo para não dar o lugar – gesto que, além de feio, deixa claro a falta de caráter da pessoa.
Dar retorno: Quando alguém é contatado (não importa o quão trivial seja o assunto) ou convidado para algum evento, deve responder. É uma questão básica da comunicação que se chama “reciprocidade”. A comunicação é como quase tudo: funciona em duas vias.
Tanto social quanto profissionalmente, não retornar os telefonemas ou e-mails, é um hábito infeliz que sempre revela falta de educação e, no segundo caso, revela ainda, falta de profissionalismo.
Ser educado é, antes de mais, respeitar o outro – em todos os sentidos. Mas cada um dá apenas o que tem e é isso que revela a sua natureza.

Pessoas educadas são, sim, pessoas superiores! 

Tuesday, May 14, 2013

O triste hábito de falar mal dos outros.


“...o que sai da boca procede do coração, e isso contamina o homem.” (Mt: 15,18)
Falar mal dos outros é um hábito infeliz, que vem se banalizando. Acontece todo o dia, a troco de nada. Hoje, com as redes sociais, cada pessoa pode se tornar alvo da maldade dos outros, exposta a alguém que posta o que quiser a seu respeito sem que ela possa se defender. Pode ser uma fotografia, um comentário ou um vídeo. E pior: pode ser mentira.  
São cada vez mais aqueles que criticam o que os outros têm ou não têm, o que fizeram ou não fizeram, seus sucessos ou fracassos. Para justificar as críticas começam dizendo “gosto muito dela (ou dele), mas...”, e pouco depois fica claro que aquele de quem disseram tanto gostar, se transforma em alguém que, afinal, não suportam.
Pessoas que cultivam a maledicência possuem certas características que as tornam temidas (mas não respeitadas):
- são perigosas porque não têm escrúpulos: não se importam se o que estão dizendo é verdade ou não;
- não são leais: falam mal de qualquer pessoa, inclusive daqueles que consideram amigos;
- acham que têm sempre razão: distorcem a realidade e só veem o lado que lhes interessa;
- são sádicas: quanto mais doloroso ou humilhante for o que têm para dizer sobre o outro, mais prazer sentem ao repetir e compartilhar;
- não têm amigos: fazem alianças em prol dos seus benefícios e ganhos.
Falar mal dos outros não é um hábito que tenha a ver com a origem social. Revela falta de educação e uma grande falha de caráter. É um comportamento típico de pessoas invejosas.
Há algumas décadas a moral tinha um peso maior na educação e determinava com mais clareza os comportamentos corretos e socialmente aceitos. Uma pessoa educada não criticava ou comentava aspectos da vida dos outros. Esse comportamento, além de ser muito elegante era – e continua sendo – um comportamento do Bem.
Diz-se que o mundo vai mal e o ser humano está piorando, mas bastaria que cada um de nós cultivasse um pequeno gesto para tudo começar a mudar. As grandes mudanças sempre começam com pequenos passos. Deixar de falar mal dos outros, evitar replicar e compartilhar o que é mau é uma atitude muito simples, mas com grande impacto ao nosso redor.
Ninguém é obrigado a gostar de todo o mundo ou de todas as coisas – aliás, isso nem seria possível. Mas fazer opções de vida não significa ser grosseiro – e mau – com os outros, falando mal deles. A vida é cheia de voltas e reviravoltas e aquilo que se faz aos outros um dia retorna: é inevitável.
A grande verdade é que vemos e julgamos o mundo pelos nossos olhos, por aquilo que somos e espreita dentro de nós. Por isso, falar mal dos outros sempre revela muito mais de quem fala do que de quem está sendo falado. 

Wednesday, March 27, 2013

O abraço.


À Elsa Martins Esteves
 "Love", de Elsa Martins Esteves
O abraço é uma pausa, um momento de entrega, a identidade de duas peles se unindo. O gesto de duas pessoas se encontrando quando galgam a distância, superam o tempo, e tentam subverter as leis da física, para fazer com que dois corpos ocupem o mesmo espaço. 
Estendem-se as mãos, os braços, e o corpo todo acompanha o movimento, abrindo caminho para a colisão de dois seres: um contra o outro. Podia ser um acidente, mas não é. O movimento transforma-se num abraço onde se enclausuram sentimentos, fomes e desejos – um abraço redondo como os planetas e uma longa descendência benigna de corpos celestiais. Um abraço redondo como a boca, as bolas de sabão, as uvas prontas para a vindima e as esferas do universo.
Há abraços leves, superficiais, abraços do dia a dia, quando cumprimentamos alguém, tropeçamos com afetos, tocamos as peles brandas dos amigos. Abraços de bem querer, de bem estar, que nos fazem atravessar o cotidiano sem perturbações ou questionamentos. Abraços que pedem legendas, palavras para explicá-los. Abraços suaves como rendas.
Há abraços mornos como brisas e quentes como o sol no pico do verão. Há abraços doces como frutas maduras e salgados como o mar. Há abraços com cheiro de flores e de chuva – mel e alfazema das terras planas.
Mas não há abraços pequenos. Os abraços são sempre grandes, maiores que os braços, maiores que o corpo, maiores que o riso. Alguns são nós de marinheiro que prendem os corpos preparando-os para o amor, as marés e as tempestades loucas dos deuses ciumentos. Abraços como astros que se incendeiam e iluminam o céu em noites de breu, quando os olhos se arregalam muito para tentar vencer a escuridão.            
E há abraços fundos que nos tiram o fôlego, o rumo, o tino. Abraços de antigamente, que resgatam memórias perdidas de tempos apenas pressentidos. Abraços que se bastam – onde os continentes se encontram, os braços se encaixam e as palavras se calam.
Há abraços onde cabem o mundo, a vida, os sonhos, a esperança, o susto, o espanto, as manhãs e as noites. Há abraços assim: abraços de uma vida onde os corpos revelam a alma.
E, por vezes, é apenas isso que levamos: um abraço que nos redime, que nos salva, que nos enche o futuro. Um abraço onde se reconhece o outro, onde se mergulha para dentro do outro numa queda vertiginosa, sem nada que nos ampare, nada que nos segure. Um abraço que é um abismo. Um abraço inteiro, de uma vida inteira. 


Monday, March 18, 2013

Intolerantes, os donos da razão


Certas pessoas transformam alguns temas em missões de vida, não porque defendam princípios importantes para o ser humano – se assim fosse sua atitude estaria justificada, mas simplesmente porque o outro é diferente: pratica uma religião diferente, pertence a outra cultura ou classe social, tem outra cor de pele ou orientação sexual, nasceu em algum país exótico ou distante.
Há coisas que são totalmente indefensáveis – não há cultura ou credo que as justifiquem. Por muito que se tente, não há como conviver com certos princípios ou atitudes: defender a supremacia de uma raça, religião, grupo político ou de um ser sobre o outro, excisar meninas em nome da fé, ser homofóbico ou ser racista, são apenas alguns exemplos sem defesa, porque estão muito além das diferenças culturais. Exemplos assim atingem a própria humanidade, a sua civilidade e evolução espiritual – aquilo que, na essência, nos afasta da animalidade e da barbárie.
O mais espantoso é que, muitas das pessoas que criticam as atitudes preconceituosas dos outros, e se consideram arautos do Bem, têm atitudes igualmente intolerantes. É como se houvesse dois pesos e duas medidas: uma para os outros – que eles podem julgar livremente, e outra para eles próprios – que só podem ser julgados por Deus.
Infelizmente, a intolerância e o preconceito ainda são muito frequentes na sociedade atual.
Hoje falemos de grupos religiosos. O que está em causa aqui não é a religião, mas a existência de um bando de indivíduos intolerantes e fanáticos que se escudam na religião para criticarem e agredirem as escolhas de vida alheias.
Parece óbvio que a religião deveria ser um caminho para a elevação espiritual, para ajudar as pessoas a descortinarem o melhor de si: terem compaixão, perdoarem, serem tolerantes, amarem o próximo. Nunca ouvi falar de um verdadeiro líder religioso que não tivesse  seguido estes princípios e, no entanto, o que mais há é gente que não larga a religião e não segue nenhum desses princípios basilares.
É triste ver alguém atacando e assediando moralmente os outros por pertencerem a uma religião diferente. E é difícil entender como alguém pode considerar-se dono da verdade e acreditar que a sua opção religiosa é a única que está correta, e todos os outros estão errados, não pertencem ao grupo dos “eleitos”, e vão “arder no fogo dos infernos”. Sempre achei que isso fosse um julgamento que pertence à esfera do divino, e não à esfera dos homens!
E como se pode conversar com uma pessoa assim? Alguém que se acha dona da razão? Não há diálogo possível. Qualquer resposta, qualquer palavra, só irá agravar a situação, porque pessoas assim sentem-se facilmente afrontadas e tornam-se agressivas. Aliam ignorância com estupidez – uma combinação letal.
Uma religião – ou um credo – que não segue o caminho do amor, da tolerância e do respeito ao próximo, não é do Bem. É outra coisa qualquer. É um caminho obscuro que leva ao ódio e ao fanatismo. E o fanatismo é acreditar que a “sua verdade” está acima de tudo o resto e surge quando o amor pelo outro tem menos valor que as sua crenças pessoais. E isso viola um dos princípios religiosos essenciais: o do amor ao próximo, o amor à humanidade.
Criação de Adão - Michelangelo
Pergunto: há alguém que ainda acredite, em pleno século XXI, que se possa marginalizar, insultar, agredir ou matar em nome de Deus? E que Deus é esse? É, certamente, um deus humano, criado à semelhança dos homens, herdeiro de suas falhas e limitações, sua cegueira e intolerância.
Um Deus de verdade quer tolerância, paciência e respeito pelo outro, amor e compaixão. Se alguém que diz seguir algum credo não praticar estes princípios, então é porque está deturpando o Bem.  Cada religião tem o seu espaço, e há que respeitar as escolhas – não apenas as religiosas – há que respeitar qualquer escolha, porque cada um de nós tem algo diferente a aprender, mas certamente todos temos que aprender a ser mais tolerantes. 

Thursday, January 31, 2013

Inveja, um caminho tortuoso.


A invejosa madrasta da Branca de Neve
Já escrevi sobre a inveja – “Inveja, o lado mau do desejo” –, mas para atender vários pedidos, vou abordar novamente o tema, embora desta vez, sob um prisma mais filosófico.
Do ponto de vista cristão, a inveja infringe o 10º mandamento – “Não cobice as coisas alheias” – porque a cobiça é um desejo descontrolado, ligado à ganância e à avidez, e é o que está na origem da inveja.
Filósofos e teólogos, que se debruçaram sobre o tema, são unânimes em considerar a inveja desprezível, por seus efeitos nefastos sobre o homem. São Gregório Magno (540-604) dizia que “da inveja nascem o ódio, a maledicência, a calúnia, a alegria causada pela desgraça do próximo e o desprazer por sua prosperidade”. Descartes (1596-1650) afirmou que a inveja causa dano tanto ao invejado quando ao invejoso, porque ele não tem paz e sente uma angústia perpétua perante os êxitos do outro. O invejoso sofre continuamente.
Os sentimentos suscitados pela inveja levaram São Tomas de Aquino (1225-1274) a defini-la “como uma tristeza, um sentimento de infelicidade diante da felicidade alheia, ou da felicidade diante da infelicidade alheia”. Spinoza (1632-1677), por sua vez, explicou que essa tristeza se transforma em ódio “e o ódio nunca é bom”, porque torna o homem amargo, levando-o a fazer mal aos outros. E é exatamente por isso que Kant (1724-1804) considera a inveja má – por ser um caminho inevitável para o ódio.
Inveja (envy) um dos crimes de Seven
De acordo com os pensadores do tema, há quatro sinais para reconhecer a inveja:
- regozijar-se com a infelicidade do outro: sentir alegria com os seus fracassos e insucessos;
- entristecer-se com a felicidade e sucessos alheios;
- não suportar os elogios aos outros: se alguém é elogiado, o invejoso tenta depreciar a pessoa elogiada enfatizando sempre os seus pontos negativos;
- difamar ou caluniar o outro – aberta ou veladamente.
A inveja nivela por baixo: o invejoso não suporta conviver com alguém que tenha mais do que ele e parte para a agressão, tentando destruir o outro – no mínimo, pela maledicência e pela intriga. Em certos casos, o invejoso nem sequer deseja o que o outro tem, o que ele quer é que o outro não tenha. É como diz o provérbio “cão de moleiro, nem come, nem deixa comer” – isto é, o invejoso não aproveita o que tem nem deixa que os outros aproveitem.
São Tomas de Aquino resumiu as características e, simultaneamente, os resultados da inveja:
- a murmuração – a fofoca – consiste em distorcer e espalhar mentiras sobre fatos embaraçosos ou depreciativos em relação à outra pessoa, com o intuito de prejudicá-la;
 - a detração é a maledicência às claras. Tem intenções e efeitos semelhantes aos da murmuração, porém é feita abertamente. A diferença entre ambas reside no fato de que, na detração, o invejoso sente orgulho em aparecer como causador do dano;
 - a exultação pela adversidade é quando alguém tenta, de todas as formas possíveis, diminuir a glória e o resultado do trabalho e sucesso das pessoas ao seu redor;
 - a aflição pela prosperidade é a tristeza pelo sucesso do outro. Acontece quando o invejoso, incapaz de diminuir as conquistas da outra pessoa, passa a entristecer-se com elas;
- o ódio é o resultado final da inveja. O invejoso entristece-se com o sucesso do outro, e não deseja apenas o fim das suas glórias, também deseja que aquela pessoa se dê mal sob todos os aspectos, que sofra horrores, que se destrua.
Salieri invejoso do gênio de Mozart
E o que se inveja? Tudo, desde os bens materiais às virtudes e caraterísticas da personalidade de alguém. Mas Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) defendia que a inveja se manifestava perante o que está próximo, o que está perto, não quem está muito acima ou abaixo de nós. E o invejoso é aquele que acredita não ter o que merece, e fica sofrendo com os bens do outro, por achar que deveriam ser seus, por direito. É patético que alguém precise falar mal do outro, ou destruí-lo, para melhorar de vida ou conseguir as coisas que deveria obter por meio do seu próprio esforço e mérito.
Por isso, é preciso vasculhar e vigiar bem o coração, porque a inveja é uma emoção tremenda, que gera prazer perante a desgraça do outro, um prazer oculto, que leva ao ódio – um dos mais terríveis e decadentes sentimentos que o ser humano pode ter. Muitos dos que abordaram a inveja afirmam que o reprovável não é querer uma vida melhor ou querer o que o outro tem – esses são desejos normais. O problema surge quando o sucesso do outro causa sofrimento e o fracasso do outro causa alegria – isso é reprovável porque é inveja, e é condenável por levar a agir de forma maldosa.